segunda-feira, 2 de junho de 2008

Morre José Alcides Pinto

Morre José Alcides Pinto


É com imenso pesar que as linhas de A TAPIOCA abrem exceção para anunciar o falecimento de José Alcides Pinto, que, com sua morte inesperada, deixa um vazio enorme nas letras brasileiras. José Alcides Pinto morreu hoje pela manhã, nesta segunda-feira. Ele estava internado, em estado grave, na UTI do Hospital São Mateus depois de ser vitima de acidente de trânsito no Centro de Fortaleza.

Nascido em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, em 1923, foi poeta, contista, romancista, crítico literário, ex-professor universitário (ufc) de cujas funções pediu dispensa para realizar sua grande obra de escritor, foi também dramaturgo, e, entre os muitos livros de sua extensa obra (quase cinquenta publicações) destacamos as seguintes obras:

romance

Manifesto Traído;
O Dragão,
Os Verdes Abutres da Colina (vestibular UFC);
João Pinto de Maria: Biografia de um Louco;
A Divina Relação do Corpo;
O Amolador de Punhais.

novela
O Criador de Demônios;

contos
Editor de Insônia

poemas
As Tágides;
Relicário Pornô (marco na poesia erótica brasileira);
Fúria;
20 Sonetos de Amor Romântico e Outros Poemas;
Guerreiros da Fome;

teatro
Equinócio;

crítica literária
Política da Arte I
Política da Arte II

A morte José Alcides Pinto, o maior romancista cearense da atualidade, configura-se numa perda inestimável para a literatura brasileira contemporânea, pois com ele morre uma das mentes mais criativas e indomáveis dos últimos 60 anos.

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terça-feira, 6 de maio de 2008

TRAPÉZIO

TRAPÉZIO


por antonio filho

escrever é um ato profundamente criminoso. estamos sempre a repetir palavras, estamos sempre a roubar palavras. de um lado cometemos um crime estético e de outro cometemos um crime ético. de um lado, as palavras são mocinhas muito promíscuas, a andar de namoro explícito com qualquer um que as queira. por outro lado então, estão eternamente a nos exigir exclusividade na relação. arre! o que fazer então? usá-las ou não? usemo-las!











é sabido que o haicai ou haikai, ou haiku é uma forma fixa de poema japonês popularizado por bashô na segunda metade no século XVII. o haicai é um pequeno poema composto de apenas três versos e com esquema silábico de cinco sílabas no primeiro verso, sete sílabas no segundo e novamente cinco sílabas no terceiro verso; e, tradicionalmente aborda temas das estações do ano. no brasil, o haicai foi difundido e formalmente modificado por guilherme almeida, que, embora mantendo o mesmo esquema silábico, dotou-o de rimas em que o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo apresenta uma rima leonina. fato que tornou sua feitura um verdadeiro desafio pro poeta brasileiro. certamente, por esse desafio à ludicidade, o haicai tornou-se muito popular no brasil tendo sido praticado por diversos escritores.

na pós-modernidade literária brasileira o hacai ganhou novas formas e novos temas. paulo leminski, por exemplo, explorando as possibilidades espaciais do haicai, deu-lhe uma bem acabada dimensão plástica em suas incursões concretistas. muitos outros conhecidos autores também experimentaram o haicai, como millôr fernandes, alice ruiz e arnaldo antunes. o fato é que o haicai, longe de se transformar numa espécie de frankenstein poético, como injustamente acusam o soneto experimental praticado por alguns escritores como glauco matoso, se configura, nos dias de hoje, como uma forma de grande expressão poética. na verdade, mesmo assumindo novas formas e abordando novos temas, o haicai nunca perdeu a sua essencial e tradicional vocação paisagística.

aqui no ceará também houve e há grandes cultores do haicai como francisco carvalho, que lhe dedica espaço em seu famoso livro BARCA DOS SENTIDOS (1989) com uma seção composta de 100 haicais. e arthur eduardo benevides, que, em seu NOTURNOS DE MUCURIPE & POEMAS DE ÊXTASE E ABISMO (1992) experimenta essa forma em alguns poemas. no entanto, arrisco-me a dizer que ninguém, pelo menos em terras alencarinas, mais dedicou tanta atenção a esse pequeno grande poema que adriano espínola. o poeta, autor de BEIRA-SOL (1997), livro tema de vestibular da universidade federal do ceará, dedicou-se exclusivamente à experência do haicai em 1984 com a publicação de TRAPÉZIO. que será o livro ao qual nos dedicaremos nesta edição de A TAPIOCA.












todo branco e com as letras da capa em baixo-relevo e, terço inferior com uma fina linha azul atravessando a partir da orelha posterior, contra-capa e parte da capa, pois a linha azul faz sinuoso movimento descendente, parece já dizer que teremos um livro dividido. composto por 49 poemas, TRAPÉZIO é dividido em três partes: NUS, com trinta e seis poemas; VIAGEM, sete poemas; e SETA, com seis.

na primeira parte do livro, NUS, temos um adriano arcádico, quase pastoril, longe de se refugiar na natureza, o poeta passeia por ela em sua sina de flaneur pós-moderno, voyeur, irônico e erótico. a natureza é sua matéria de fotógrafo revelador de palavras. e, na sua colheita diária, vai registrando, sinestésica e metaforicamente, luzes, cores, matizes, sons e acontecimentos do dia.

Aurora

O sol despertado.

Um galo tenta bicá-lo:

O canto rosado.


Pudor

O mar furioso:

Cambraias cobrem as saias

Das ondas em gozo.

uma dimensão recorrente da poesia de adriano espínola é o humor. mas, ao nosso ver, esse humor é de teor extremamente salutar, pois, o poeta, longe de se colocar intangível e se refugiar num castelo de cristal ou numa torre de marfim valioso, por vezes se ironiza e ri de si mesmo. um bom exemplo é o haicai:

Obsessão

Estanca um jumento

Na esquina. Teima e rumina

O meu pensamento.

adriano espínola, ao nosso ver, sempre, desde antes de seus livros épico-urbanos, TÁXI e METRÔ, já tinha uma predileção pela narrativa poética. na verdade, desde antes. josé alcides pinto, a respeito de O LOTE CLADESTINO (1982), já apontava em adriano as qualidades de poeta social, embora também erótico. acreditamos mesmo que desde sua estréia com A CIDADE (1976) e, depois, principalmente, com FALA FAVELA (1981), adriano já demonstrava sua pouca afeição por uma poesia vaidosa voltada para um eu lírico onisciente, centralizador e desnecessariamente confessional. em TRAPÉZIO, adriano, menos social, e, no entanto, mais erótico e existencial, faz uma viagem haicaísta de fora para dentro de si, como poeta e como homem. podemos constatar isso se percebermos que os poemas de TRAPÉZIO estão numa ordem progressiva, que vai das coisas diurnas às noturnas, formando um paralelo com as externas e as internas ao eu lírico do texto. vejamos que o poema catorze do livro demonstra isso.

Tristeza

Uma árvore torta.

Uma ave cantando grave.

A tarde já morta.

também, o lindíssimo poema vinte e seis.

Outono

Folhas. Ventania.

Cajus se despencam nus:

Apodrece o dia.

esses poemas marcam bem essa mudança da claridade idílica e diurna para a escuridão existencial noturna.

vejamos que esse crescente voltado para dentro continua. pois, para o poeta, de certa forma mais pessimista com o acúmulo dos acontecimentos, o dia, para ele, pode assumir dimensões agônicas.

Suicídio

O sol no horizonte.

O dia com sua agonia

Despenca da ponte.

mas o poeta não é completamente pessimista e existencial, ele vê que em tudo pode haver humor e idílio, e que sempre pode haver uma compensação passível de alegria.

Festa

Noite. A saparia

Explode no brejo uma ode

De louca alegria.

e, por último, antes que o dia retorne com seu renovado buquê de esperanças, há o derradeiro refúgio e lenitivo da embriaguez com seu sonho de plena vigília.

Boêmia

No céu, as estrelas.

A lua, boiando na rua.

Um ébrio quer tê-las.

VIAGEM, bem menor, todavia não menos significativa, é a segunda parte do livro, composta de apenas sete haicais. aqui adriano se distancia da pura contemplação das coisas da natureza e passa a se dedicar ao corpo. nessa parte ele cumpre sua vocação de poeta erótico, visceralmente sensual, e participa do sexo cantando a carne trêmula e tépida da mulher amada. o poeta tem caminho certo no amor que promete, no amor que realiza o desejo e no amor que, satisfeito, descansa sorridente das aventuras noturnas. para melhor compreendermos os caminhos amorosos do poeta, sugiro a leitura deste lindo exemplo de haicai erótico:

II

Teu corpo deitado:

Eu tomo nas mãos teu pomo,

Negro e iluminado.

composta de seis poemas, SETA é a terceira e última parte do livro. aqui adriano espínola aborda os difíceis temas do tempo e da arte. ele desata as cordas e deixa cair as cortinas. é o ato final de seu teatro pastoril, satírico, irônico, burlesco e, paradoxalmente, de essência trágica. e o flaneur supermoderno faz a viagem de volta, lúcido e límpido, não triste, mas pensativo. o poeta, nesse momento, chega de certa forma a um tipo de pessimismo, num beco sem saída.

Sim/não

Caminha e repara:

No mundo, o mesmo segundo

Que junta, separa.

todavia demonstra que tudo na vida é um jogo entre carma e darma, ação e reação, e que tudo é passível de caos destrutivo e necessidade de criação. mas, o poeta ironiza e brinca encerrando o livro, sem entregar os pontos e sempre de bom humor.

Um

Shiva dança. Com

A seta do eterno espeta

Todo o universo. Om!












aqui não queremos ser injustos nem com o autor nem com o leitor, por isso não nos prolongamos, nestas duas últimas partes, com transcrições, deixaremos isso a cargo da curiosidade insuperável do leitor, que merece descobrir as entranhas deliciosas desse livro. embora desmerecidamente, considerado de menor expressão dentro do conjunto da obra de adriano espínola, TRAPÉZIO em nossa humilde opinião bem que merecia uma reedição de luxo, que juntasse à antiga acrescimentos de haicais inéditos e comentários críticos.

TRAPÉZIO tem projeto gráfico assinado por geraldo jesuíno, que também assina todas as ilustrações inclusive o retrato do poeta estampado na contra-capa. o livro apresenta uma composição muito simples, embora elegante. na verdade, para sermos justos TRAPÉZIO é uma obra primorosa de projeto editorial e gráfico, embora, nos moldes originais, de publicação quase que impraticável nos dias de hoje, pois o livro tem formato quadrado, 21cmX21cm, de difícil exposição nas estantes. O que certamente, num mundo onde farmácias e postos de gasolina vendem livros, não seria de interesse das editoras.

com TRAPÉZIO adriano espínola se apresenta o mestre do verso já há muito, e por muitos, reconhecido. Mas, também se mostra um poeta capaz de unir a tradição dessa pequena e antiga forma poética, o haicai, aos temas e fazeres da poesia de nossa pós-modernidade.

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domingo, 7 de outubro de 2007

SONATA DOS PUNHAIS

SONATA DOS PUNHAIS
por antonio filho

devia há muito tempo um retorno a estas plagas virtuais, e o faço
, em primeiro lugar, por insistência de amigos, e, em segundo, por esse vício besta de escrever.



acho que tantos livros mereciam umas palavras... mas é preciso começar por um de tantos. e começarei por este SONATA DOS PUNHAIS, publicado em 1994 pelo Programa Editorial Casa de José de Alencar da UFC. há tempos que o li, um livro no mínimo impressionante, um livro considerado menor frente a obra do autor, um livro inesquecível. nele, ou por ele, francisco carvalho transporta-se em sua temática quase infinita, não fosse a avareza que ele mesmo diz ser incapaz de transliterar-se em poesia. nele francisco canta, ao tilintar das lâminas de sua voz de anti-cínico, a condição precária da vida humana. o que nos poria obrigados a ler o soneto BALADA DO ESPÓLIO (pág. 75).

BALADA DO ESPÓLIO

A Jaci Bezerra

Nossos haveres são messes de palha
são pastagens de vento os nossos olhos.
Até o amor e as plumas da mortalha
tudo pertence à traça dos espólios.

Dividimos a herança com quem passa
sangue e areia no instante da partilha.
O celeiro de espantos, a trapaça
e os dentes amarelados da matilha.

Dividimos o ouro das arcadas
o fel da fala, os pastos do litígio
e as vestes ensopadas de luxúria.

Dividimos o pânico, as escadas
o andor da morte, as arcas do prodígio.
Repartimos o horror, menos a fúria.

acredito que aqui vale uma observação sobre a forma adotada para os poemas desse livro. é sabido que Francisco Carvalho é comumente enquadrado na Geração de 45 ou simples herdeiro dessa tradição poética. os poemas todos, com menos de uma dezena de curtas estrofes, não ultrapassam duas páginas, sendo que a maioria são de apenas uma página. como se houvesse uma motivação formal entre o título e a forma dos poemas. entre a sonata/soneto e os punhais, e a série de curtos poemas que compõem o livro.


















é considerável a presença de sonetos neste livro. e são, provavelmente, a principal experiência formal do poeta nesta obra. vejamos que, além do exemplo de A BALADA DO ESPÓLIO há outros menos tradicionais como um todo em dísticos, com sete estrofes de apenas dois versos:

RETRATO

a Caetano Aragão

O retrato ainda exala uma arrogância
nas longas barbas de senhor feudal.

Ainda preserva os signos da distância
entre a sombra do morto e o serviçal.

O retrato regressa aos seus domínios
demora o olhar na plantação de arroz.

Pastoreia a volúpia dos meninos
enquanto o inverno jorra do algeroz.

Vai ao quarto das moças, certo quarto
que recende a pecado e alfazema

e põe ardil nos olhos do retrato
odor de argúcia achado numa lenda

O retrato ainda exala certa fúria.
Certo aroma de incesto e de luxúria.

em O RETRATO francisco ainda mantém os decassílabos heróicos, no entanto, com algumas irregularidades que ao contrário de se configurar em defeito, enriquecem ainda mais, com uma melodia menos rígida, a dura temática do poema. fato que já não ocorre em A ONDA É UM PÁSSARO (pág. 14), certamente por ser um poema de um lirismo muito mais idílico e de feição claramente paisagística, o poeta adota forma e ritmo diversos em versos heptassílabos, embora mantenha a estrutura de sete dísticos.

A ONDA É UM PÁSSARO


Na tarde feita de conchas
a onda é uma ave que canta.

Chegam do mar asas tontas
roçando a espuma brilhante.

Na tarde azul se desenha
mapas de incestos e insídias.

Chegam do mar e das brenhas
gaivotas enfurecidas.

Todas as sombras velozes
desse mar de profecia.

Sombras de gestos e vozes
naufragadas num só dia.

Na tarde feita de espumas
anjos se estupram nas dunas.


um poema de forte tensão erótica e dilaceradora. nele o poeta enxerga a composição em pleno movimento, e, não obstante a beleza do quadro, registra tudo em lentes telescópicas. e tudo corta a paisagem com violência e velocidade.



outro poema dentro do esquema de sete estrofes de dois versos é LENDA DO PÉSSEGO (pág. 31) . outro poema de grande conotação erótica. nele o poeta se vale de suas principais armas de artífice da palavra mágica: a sinestesia. o poeta mistura os sentidos do leitor, num paroxismo de informações sensoriais. e tudo dentro de um ritmo misterioso, versos de uma melodia fluida e fugidia. o que poderia sugerir-nos que o poeta se inspirou nos antigos alexandrinos espanhóis. este um poema no mínimo intrigante e aqui o transcrevo para que o leitor possa chegar às suas próprias conclusões.


LENDA DO PÊSSEGO

Taça de cedro, borra
de vinho sacrílego.

Urna de argila
negra, cálice de usuras.

Curva sutil da outra
metade do seio.

Olhos de terracota
fixo na compota.

Sílaba de barro
de algum hino tribal.

Talismã cego
dos hinos órficos.

Tatuagem de sangue
na curva da nádega.


mas a sonata de carvalho não é feita apenas de erotismo. neste livro, acredito, francisco carvalho é um poeta de condição humana profundamente atormentada. nele, isto é, em sua poesia há um profundo espanto frente a essa fragílima existência do homem sobre a terra. tanto que os personagens do seu teatro de agonias, "o vento, o tempo, os rios, a noite, o sexo", metáforas umas das outras, assombram-lhe incansavelmente o texto. na verdade, repetindo o que dissemos no início, o poeta carvalho expressa seu profundo pesar frente à precariedade da existência humana. o poeta chega ao ponto de revoltar-se contra essa condição e entende que, não fosse a crença na superioridade divina ou na prometida recompensa que ela representa o homem provavelmente estaria fadado à completa dilaceração e mútua destruição. portanto, aqui, sugiro a leitura de dois poemas o SONETO DA FÚRIA (pág, 81) e GIRASSOL (pág. 100).


SONETO DA FÚRIA

a Sânzio de Azevedo

Nossas vidas não passam de utopias
volúveis como as roupas no varal.
De espera e adeus são feitos nossos dias.
Cada qual é seu próprio canibal.

Duras e amargas são as nossas vias.
Até o amor é anseio pendular
(crispação de tristezas e alegrias).
Somos adubo e exílio do avatar.

Nosso nome é exilado numa pedra.
Nossa glória é a vertigem dum momento
vogal de sangue escrita em lousa espúria.

A dinastia da morte nos celebra
com seus penachos de elegia e vento.
Só Deus aplaca a sede e nossa fúria.



GIRASSOL



O vento chega do mar
o aroma dos seus vestidos
o girassol da janela.

a vida jorra do corpo
sangue que amola os punhais
o girassol na janela.

A água respira o éter
o vento arranca os teus seios
o girassol na janela.

A morte planta o seu caule
numa planície de sangue
o girassol na janela.

a noite dorme nos pássaros
a terra canta nos veios
o girassol na janela.

Os lobos uivam na escarpa
cantam pardais nos teus seios
o girassol na janela.

Agora estão todos mortos
as tumbas de olhos abertos
o girassol na janela.


não devia dizer, mas farei mesmo sob o risco do erro, que é obrigatória e salvadora da condição humana, que a dimensão da poética carvalhana é a profunda e circunspecta existencialidade. e essa dimensão, essa condição maior de sua poética está em cada poema seu. francisco, homem e poeta, pergunta-se, contempla-se em si mesmo, nos outros homens e na ilusão das representações. consideramos assim, porque estão presentes quase que obssessivamente os espelhos, os retratos, as esfinges, os desenhos, os olhos e o próprio olhar do poeta, na escrita de grande parte dos poemas do livro. são exemplares os poemas POEMA DE DUAS FACES (pág. 101), VERSOS OBSCUROS (Pág. 113) PASTOR DE COLMÉIAS (PÁG. 119
). e aqui transcreveremos CANÇÃO DA ESFINGE (pág. 112).

CANÇÃO DA ESFINGE

Estou parado na esquina
pra ver a esfinge passar.
Chove sangue a noite inteira.
Um lobo espreita o luar.

Ouço o grito da donzela
vindo da noite ou do mar.
A mesma que foi levada
pra algum rei deflorar.

O negro uivo dos lobos
parte a argila do alguidar.
A esfinge desce do abismo,
vem de perto nos fitar.

Passa o cavalo do arauto
em seu galope galopar,
levando a triste donzela
que o rei não quis deflorar.

aqui fizemos uma leitura de alguns poemas de francisco carvalho. tentamos, na verdadde, dar pistas de leitura, pistas de decifração da esfinge poética que sempre será francisco carvalho. além do mais, sincera e humildemente esperamos que esse pequeno portal de literatura seja uma espécie de refúgio para leitores que tenham curiosidade pelo novo e pelo diferente que foi e está sendo feito no meio literário cearense.

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