TRAPÉZIO
por antonio filho
escrever é um ato profundamente criminoso. estamos sempre a repetir palavras, estamos sempre a roubar palavras. de um lado cometemos um crime estético e de outro cometemos um crime ético. de um lado, as palavras são mocinhas muito promíscuas, a andar de namoro explícito com qualquer um que as queira. por outro lado então, estão eternamente a nos exigir exclusividade na relação. arre! o que fazer então? usá-las ou não? usemo-las!
é sabido que o haicai ou haikai, ou haiku é uma forma fixa de poema japonês popularizado por bashô na segunda metade no século XVII. o haicai é um pequeno poema composto de apenas três versos e com esquema silábico de cinco sílabas no primeiro verso, sete sílabas no segundo e novamente cinco sílabas no terceiro verso; e, tradicionalmente aborda temas das estações do ano. no brasil, o haicai foi difundido e formalmente modificado por guilherme almeida, que, embora mantendo o mesmo esquema silábico, dotou-o de rimas em que o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo apresenta uma rima leonina. fato que tornou sua feitura um verdadeiro desafio pro poeta brasileiro. certamente, por esse desafio à ludicidade, o haicai tornou-se muito popular no brasil tendo sido praticado por diversos escritores.
na pós-modernidade literária brasileira o hacai ganhou novas formas e novos temas. paulo leminski, por exemplo, explorando as possibilidades espaciais do haicai, deu-lhe uma bem acabada dimensão plástica em suas incursões concretistas. muitos outros conhecidos autores também experimentaram o haicai, como millôr fernandes, alice ruiz e arnaldo antunes. o fato é que o haicai, longe de se transformar numa espécie de frankenstein poético, como injustamente acusam o soneto experimental praticado por alguns escritores como glauco matoso, se configura, nos dias de hoje, como uma forma de grande expressão poética. na verdade, mesmo assumindo novas formas e abordando novos temas, o haicai nunca perdeu a sua essencial e tradicional vocação paisagística.
aqui no ceará também houve e há grandes cultores do haicai como francisco carvalho, que lhe dedica espaço em seu famoso livro BARCA DOS SENTIDOS (1989) com uma seção composta de 100 haicais. e arthur eduardo benevides, que, em seu NOTURNOS DE MUCURIPE & POEMAS DE ÊXTASE E ABISMO (1992) experimenta essa forma em alguns poemas. no entanto, arrisco-me a dizer que ninguém, pelo menos em terras alencarinas, mais dedicou tanta atenção a esse pequeno grande poema que adriano espínola. o poeta, autor de BEIRA-SOL (1997), livro tema de vestibular da universidade federal do ceará, dedicou-se exclusivamente à experência do haicai em 1984 com a publicação de TRAPÉZIO. que será o livro ao qual nos dedicaremos nesta edição de A TAPIOCA.
todo branco e com as letras da capa em baixo-relevo e, terço inferior com uma fina linha azul atravessando a partir da orelha posterior, contra-capa e parte da capa, pois a linha azul faz sinuoso movimento descendente, parece já dizer que teremos um livro dividido. composto por 49 poemas, TRAPÉZIO é dividido em três partes: NUS, com trinta e seis poemas; VIAGEM, sete poemas; e SETA, com seis.
na primeira parte do livro, NUS, temos um adriano arcádico, quase pastoril, longe de se refugiar na natureza, o poeta passeia por ela em sua sina de flaneur pós-moderno, voyeur, irônico e erótico. a natureza é sua matéria de fotógrafo revelador de palavras. e, na sua colheita diária, vai registrando, sinestésica e metaforicamente, luzes, cores, matizes, sons e acontecimentos do dia.
Aurora
O sol despertado.
Um galo tenta bicá-lo:
O canto rosado.
Pudor
O mar furioso:
Cambraias cobrem as saias
Das ondas em gozo.
uma dimensão recorrente da poesia de adriano espínola é o humor. mas, ao nosso ver, esse humor é de teor extremamente salutar, pois, o poeta, longe de se colocar intangível e se refugiar num castelo de cristal ou numa torre de marfim valioso, por vezes se ironiza e ri de si mesmo. um bom exemplo é o haicai:
Obsessão
Estanca um jumento
Na esquina. Teima e rumina
O meu pensamento.
adriano espínola, ao nosso ver, sempre, desde antes de seus livros épico-urbanos, TÁXI e METRÔ, já tinha uma predileção pela narrativa poética. na verdade, desde antes. josé alcides pinto, a respeito de O LOTE CLADESTINO (1982), já apontava em adriano as qualidades de poeta social, embora também erótico. acreditamos mesmo que desde sua estréia com A CIDADE (1976) e, depois, principalmente, com FALA FAVELA (1981), adriano já demonstrava sua pouca afeição por uma poesia vaidosa voltada para um eu lírico onisciente, centralizador e desnecessariamente confessional. em TRAPÉZIO, adriano, menos social, e, no entanto, mais erótico e existencial, faz uma viagem haicaísta de fora para dentro de si, como poeta e como homem. podemos constatar isso se percebermos que os poemas de TRAPÉZIO estão numa ordem progressiva, que vai das coisas diurnas às noturnas, formando um paralelo com as externas e as internas ao eu lírico do texto. vejamos que o poema catorze do livro demonstra isso.
Tristeza
Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.
também, o lindíssimo poema vinte e seis.
Outono
Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
Apodrece o dia.
esses poemas marcam bem essa mudança da claridade idílica e diurna para a escuridão existencial noturna.
vejamos que esse crescente voltado para dentro continua. pois, para o poeta, de certa forma mais pessimista com o acúmulo dos acontecimentos, o dia, para ele, pode assumir dimensões agônicas.
Suicídio
O sol no horizonte.
O dia com sua agonia
Despenca da ponte.
mas o poeta não é completamente pessimista e existencial, ele vê que em tudo pode haver humor e idílio, e que sempre pode haver uma compensação passível de alegria.
Festa
Noite. A saparia
Explode no brejo uma ode
De louca alegria.
e, por último, antes que o dia retorne com seu renovado buquê de esperanças, há o derradeiro refúgio e lenitivo da embriaguez com seu sonho de plena vigília.
Boêmia
No céu, as estrelas.
A lua, boiando na rua.
Um ébrio quer tê-las.
VIAGEM, bem menor, todavia não menos significativa, é a segunda parte do livro, composta de apenas sete haicais. aqui adriano se distancia da pura contemplação das coisas da natureza e passa a se dedicar ao corpo. nessa parte ele cumpre sua vocação de poeta erótico, visceralmente sensual, e participa do sexo cantando a carne trêmula e tépida da mulher amada. o poeta tem caminho certo no amor que promete, no amor que realiza o desejo e no amor que, satisfeito, descansa sorridente das aventuras noturnas. para melhor compreendermos os caminhos amorosos do poeta, sugiro a leitura deste lindo exemplo de haicai erótico:
II
Teu corpo deitado:
Eu tomo nas mãos teu pomo,
Negro e iluminado.
composta de seis poemas, SETA é a terceira e última parte do livro. aqui adriano espínola aborda os difíceis temas do tempo e da arte. ele desata as cordas e deixa cair as cortinas. é o ato final de seu teatro pastoril, satírico, irônico, burlesco e, paradoxalmente, de essência trágica. e o flaneur supermoderno faz a viagem de volta, lúcido e límpido, não triste, mas pensativo. o poeta, nesse momento, chega de certa forma a um tipo de pessimismo, num beco sem saída.
Sim/não
Caminha e repara:
No mundo, o mesmo segundo
Que junta, separa.
todavia demonstra que tudo na vida é um jogo entre carma e darma, ação e reação, e que tudo é passível de caos destrutivo e necessidade de criação. mas, o poeta ironiza e brinca encerrando o livro, sem entregar os pontos e sempre de bom humor.
Um
Shiva dança. Com
A seta do eterno espeta
Todo o universo. Om!

aqui não queremos ser injustos nem com o autor nem com o leitor, por isso não nos prolongamos, nestas duas últimas partes, com transcrições, deixaremos isso a cargo da curiosidade insuperável do leitor, que merece descobrir as entranhas deliciosas desse livro. embora desmerecidamente, considerado de menor expressão dentro do conjunto da obra de adriano espínola, TRAPÉZIO em nossa humilde opinião bem que merecia uma reedição de luxo, que juntasse à antiga acrescimentos de haicais inéditos e comentários críticos.
TRAPÉZIO tem projeto gráfico assinado por geraldo jesuíno, que também assina todas as ilustrações inclusive o retrato do poeta estampado na contra-capa. o livro apresenta uma composição muito simples, embora elegante. na verdade, para sermos justos TRAPÉZIO é uma obra primorosa de projeto editorial e gráfico, embora, nos moldes originais, de publicação quase que impraticável nos dias de hoje, pois o livro tem formato quadrado, 21cmX21cm, de difícil exposição nas estantes. O que certamente, num mundo onde farmácias e postos de gasolina vendem livros, não seria de interesse das editoras.
com TRAPÉZIO adriano espínola se apresenta o mestre do verso já há muito, e por muitos, reconhecido. Mas, também se mostra um poeta capaz de unir a tradição dessa pequena e antiga forma poética, o haicai, aos temas e fazeres da poesia de nossa pós-modernidade.
Marcadores: Adriano Espínola, Antonio Filho, literatura brasileira, literatura cearense, Trapézio